Resgatando o significado do texto bíblico

Um dos primeiros passos para o entendimento das Escrituras é discernir o significado do texto conforme escrito originalmente. Conquanto seja improvável que os arqueólogos desenterrem algum autógrafo (texto do autor original), as cópias passadas adiante chegaram até nós tão bem preservadas que nos dão a certeza de termos em nossas mãos a Palavra de Deus tal como foi revelada. Entretanto, as muitas cópias manuscritas de textos bíblicos às vezes contêm variações de palavras. E essas antigas versões apresentam-nos um desafio: recuperar a forma precisa, a gramática e a sintaxe das palavras no hebraico, no aramaico e no grego, bem como os seus significados exatos e nuanças. Por isso, como destaca Bryant Wood, “uma contribuição muito importante da arqueologia é o estudo que faz da linguagem da Bíblia”. Temos feito muitas descobertas de textos antigos, bibliotecas e coleções de documentos que nos ajudam a entender as línguas hebraica e grega, o que nos permite obter uma tradução melhor dessas línguas para o inglês. A maioria das descobertas de inscrições em línguas bíblicas ou em suas cognatas (línguas que possuem afinidade com os idiomas da Bíblia) têm afirmado a integridade dos textos recebidos (autoritativos).

Além disso, elas auxiliam os eruditos a entenderem as peculiaridades das seções poéticas e a interpretar melhor as palavras que aparecem apenas uma vez (hapax legomenon), sem qualquer sentido seguro para a tradução. Como resultado, temos agora maior certeza da validade dos textos nas línguas originais e aprimorada habilidade em traduzi-los para as línguas modernas.

Esclarecendo o mundo da Bíblia

Antes da arqueologia, a Bíblia era a testemunha solitária do que então se conhecia como “história sagrada”. As Escrituras, porém, assemelhavam-se a um livro exótico, narrando a história de uma civilização alienígena, desvinculado de pessoas e eventos reais. Sem acesso ao material do passado, cada um concebia o mundo bíblico à sua maneira. Porque a maioria da população mundial era analfabeta — situação que se estendeu até os tempos modernos — e cabia à arte e à arquitetura o papel de instruir o povo a respeito da vida nos tempos bíblicos. O mundo espiritual era elevado na arquitetura das catedrais, por exemplo, posicionando o homem comum ainda mais distante da realidade do mundo da Bíblia. Desde os mosaicos até as pinturas e esculturas em relevo, ilustrava-se a vida dos santos e pecadores das páginas sagradas, mas somente à luz limitada da época e dos conhecimentos do artista. Defrontei-me pela primeira vez com esse dilema durante uma exposição especial no Museu de Israel intitulada “Rembrandt e a Bíblia”. Graduado em arte e em teologia, interessei-me por aquela singular apresentação das obras do mestre holandês.

Uma das primeiras cenas que vi estava num esboço, datado de 1637, que representava um homem, obviamente rico, de pé na escada à porta de sua mansão. Vestia turbante, túnica com cinto, botas de cadarço, casaco de pele, e tinha um cão obediente aos seus pés. Também faziam parte da cena um garoto vestido com pesada roupa de viagem e botas e uma mulher, semelhantemente vestida, que segurava um lenço de seda. Ao fundo, altas construções de pedra e grandes árvores verdes, junto das quais uma mulher observava o homem, que aparentemente dizia adeus à mulher chorosa e ao garoto.
O tema da obra era a despedida de Agar e Ismael, e o homem era Abraão. Porém, conhecendo o mundo da Bíblia, jamais teria concebido a cena tal como se mostrava diante de mim! As personagens estavam vestidas para um clima frio, e não para o escaldante deserto do Neguebe. Onde Abraão morava não havia aquelas árvores e provavelmente nem cachorros — pelo menos não os domésticos. E os patriarcas moravam em tendas, não em mansões elegantes.

Quase que por ironia, poucos passos à frente da sala onde eram exibidas aquelas concepções erradas do século XVII ficava a exposição permanente da seção arqueológica do museu, que guardava remanescentes arqueológicos da época de Abraão. O contraste saltava aos olhos. As relíquias pintavam um quadro muito diferente do de Rembrandt, mostrando a realidade da vida nômade dos beduínos e da sociedade que cercava os patriarcas. Rembrandt não poderia mesmo saber como pintar Abraão e Sara, naturais da Mesopotâmia, ou a egípcia Hagar num ambiente cananita. Não havia referências daquela época para suprir a sua arte. A arqueologia mudou essa situação para sempre, fornecendo tanto ao artista quanto ao espectador uma visão acurada do ambiente original dos patriarcas. Esculturas de palácios da Mesopotâmia, cerâmica e artefatos cananitas e painéis pintados das tumbas egípcias, todos datando do período patriarcal, tornaram vivas as figuras bíblicas. Se os registros arqueológicos que hoje possuímos estivessem disponíveis a Rembrandt, que obras não teria pintado!

O mundo da Bíblia, conforme iluminado pela arqueologia, tem facilitado também a interpretação do texto bíblico em seu contexto histórico, como observa Gonzalo Báez-Camargo: “Não vemos mais dois mundos diferentes, um mundo da ‘história sagrada e outro da ‘história profana. Toda história é uma história, e é a história de Deus, pois Deus é o Deus de toda a história”. O achados materiais dessa história governada por Deus magnificam o mundo da Bíblia com detalhes e um realismo jamais imaginado. O professor Amihai Mazar explica:

Podemos calcular até a população de lugares como Jerusalém, ou toda a área de Judá, ou do reino de Israel. Podemos imaginar quantas pessoas viveram lá, em que tipo de comunidades viviam, que tipo de plantas cultivavam, que tipo de vasilhas utilizavam na vida diária, que tipo de inimigos tinham e que tipo de armas eles usavam contra esses inimigos — tudo o que se relaciona ao aspecto material da vida no período do Antigo Testamento pode ser descrito por achados arqueológicos desse período em particular.

Para demonstrar como o mundo da Bíblia trouxe clareza ao texto bíblico por meio das descobertas arqueológicas, consideremos as palavras de Jesus registradas
em Mateus 8.22 e Lucas 9.60, consideradas ásperas: “ […] deixa aos mortos sepultar os seus mortos”. Esses evangelhos colocam as palavras num contexto em que certos discípulos explicavam o porquê de não poderem deixar de imediato as suas respectivas situações para seguir a Jesus. Nesse exemplo específico, um discípulo pediu permissão para ir primeiro enterrar o seu falecido pai. Conforme entendido pelos leitores modernos, a aparente negativa de Jesus mostra-se tanto irracional quanto desnecessariamente severa. Alguns comentaristas tentam atenuar a declaração, interpretando-a como “deixe os espiritualmente mortos enterrarem os fisicamente mortos”, mas isso iria contradizer o quinto mandamento da lei mosaica, que diz: “Honra a teu pai e a tua mãe…” e a responsabilidade judaica de providenciar um sepultamento apropriado conforme ordenado em Deuteronômio 21.22,23. Todavia, quando interpretados à luz da informação arqueológica concernente às práticas de sepultamento do primeiro século judaico, o pedido do discípulo e a resposta de Jesus podem ser vistos sob uma ótica diferente.

O enterro judaico no tempo de Jesus consistia na verdade de dois sepultamentos e [o segundo] acontecia pelo menos um ano depois. O primeiro (conhecido como ser “reunido aos seus pais”) era dentro da cova da família, seguido por um período de pranto. O segundo era dentro de uma caixa de ossos (ossuário), geralmente com os resquícios de outros membros da família, quando já a carne estava decomposta. O que parece estar em foco no registro do evangelho é o segundo sepultamento (conhecido como ossilegium). A réplica de Jesus ao discípulo que desejava uma licença de 11 meses antes de iniciar o serviço não se referia apenas à prolongada ausência, mas especialmente ao aspecto não-bíblico do segundo sepultamento. O sepultamento imediato (“reunir-se aos seus pais”) é retratado na Bíblia (ver Gn49.29; Jz2.10; 16.31; 1 Rs 11.21,43), mas nos tempos do Novo Testamento esse conceito havia adquirido um outro significado teológico. De acordo com fontes rabínicas, o ato da decomposição tinha um efeito purificador, fazendo expiação pelos pecados do falecido.

A consumação desse processo espiritual era o ritual do segundo sepultamento. Uma vez que Jesus seguia o ensino bíblico de que somente Deus faz expiação (sobre a base da fé na redenção sacrifical […]), sua declaração corrigia essa prática imprópria. Poderíamos então interpretar as palavras em Lucas 9.60 […] como: “Olhe, você já honrou o seu pai dando- lhe um sepultamento apropriado na tumba da família. Agora, ao invés de esperar que a carne se decomponha, o que não pode expiar o pecado, vá pregar o evangelho do Reino de Deus […] o único meio de expiação. Deixe os ossos dos ancestrais de seu falecido pai reunirem-se aos dele no ossuário! Quanto a você, siga-me!”

Fonte: Livro: Arqueologia Bíblia- Autor: Randall Price, Editora: CPAD, pags- 31-34