Por que a interpretação bíblica é importante?

É essencial para a compreensão e para o ensino correto da Bíblia.

Precisamos conhecer o significado da Bíblia a fim de podermos descobrir sua mensagem para nossos dias. Devemos compreender seu sentido para a época antes de percebermos seu significado para hoje, Se descartarmos a hermenêutica (ciência e arte de interpretar a Bíblia), estaremos passando por cima de uma etapa indispensável do estudo bíblico e deixando de nos beneficiar dela. A primeira etapa, que é a observação, consiste na pergunta: “Que diz o texto?”. A segunda etapa, a interpretação, indaga: “Que quer dizer?”. A terceira, a aplicação, questiona: “Como se aplica a mim?”. Talvez a interpretação seja, das três etapas, a mais difícil e a que mais tempo consome. E, no entanto, quando o estudo bíblico é reduzido neste aspecto, pode-se incorrer em erros graves e em resultados distorcidos. Certas pessoas “adulteram a Palavra de Deus” intencionalmente (2 Co 4.2). Outras há que até mesmo “deturpam” as Escrituras “para a própria destruição deles” (2 Pe 3.16). Outros, por sua vez, interpretam a Bíblia erroneamente sem o saber.

Por quê? Por não darem a devida atenção aos princípios em causa na compreensão das Escrituras. Nos últimos anos, vemos um interesse crescente pelo estudo bíblico informal. Muitos grupos pequenos reúnem-se em casas ou nas igrejas para debater a Bíblia — o que quer dizer e como aplicar sua mensagem. Será que os integrantes desses grupos sempre chegam ao mesmo entendimento da passagem estudada? Não necessariamente. Alguém pode afirmar: “Para mim, este versículo quer dizer isto”; já outro pode retrucar: “Para mim, o sentido não é esse; é este aqui”. Estudar a Bíblia dessa forma, sem as diretrizes apropriadas da hermenêutica, pode gerar confusão e interpretações que se encontram até em inequívoco desacordo. Será que Deus pretendia que a Bíblia fosse tratada dessa forma? Se conseguimos manipulá-la para extrairmos o sentido que desejamos, como pode ser um guia confiável? O que não falta são interpretações divergentes de inúmeras passagens.

Por exemplo, uma pessoa lê João 10.28 — “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão” — e entende que esse versículo está ensinando a segurança eterna. Já a explicação que outros oferecem sobre o mesmo versículo é que, apesar de não se poder retirar um cristão das mãos de Deus, o próprio crente pode fazê-lo se persistir no pecado. Alguns são de opinião que a declaração de Paulo, em Colossenses 1.15, de que Cristo é “o primogênito’de toda a criação”, significa que ele foi criado. Outros, por sua vez, entendem por esse versículo que, como acontece com o primogênito de toda família, ele é o Herdeiro. Alguns cristãos praticam o chamado “falar em línguas” com base em 1Coríntios de 12 a 14. Já outros leem os mesmos capítulos e entendem que tal prática limitava-se à era apostólica sem aplicar-se à atualidade. Naum 2.4 — “Os carros passam furiosamente pelas ruas, e se cruzam velozes pelas praças…” — já levou à conclusão de que se trata de uma profecia sobre o trânsito intenso de automóveis em nossas cidades modernas.

Alguns procuraram atribuir um sentido “espiritual” à parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37), explicando que a hospedaria para onde o samaritano levou o ferido simboliza a igreja e que as duas moedas de prata dadas ao hospedeiro representam a ceia do Senhor e o batismo nas águas. O líder mórmon Brigham Young quis dar razão ao fato de ter mais de 30 esposas lembrando que Abraão possuía mais de uma; Sara e Hagar. A prática mórmon de batizar por causa de parentes mortos e de outras pessoas fundamenta-se, afirmam eles, em 1 Coríntios 15.29. Há quem segure cobras venenosas porque leu Marcos 16.18. A questão de as mulheres ensinarem ou não os homens depende de como se interpretam 1 Coríntios 11.5; 14.34, 35 e 1 Timóteo 2.12. Alguns pregam que o reinado atual de Cristo nos céus indica que ele não vai estabelecer um reinado de mil anos na terra após sua volta. Para outros, a Bíblia ensina que Cristo, apesar de governar o universo atualmente, haverá de manifestar seu reino no plano físico quando vier para reinar como o Messias sobre a nação de Israel, no Milênio.

Todas essas — como tantas outras — são questões de interpretação. Evidentemente, essa discrepância de concepções ressalta que nem todos os leitores seguem os mesmos princípios para compreender a Bíblia. A ausência de uma hermenêutica correta também é a causa dos enormes desmandos e da difamação que sofre a Bíblia. Até mesmo alguns ateus tentam defender seu posicionamento com Salmos 14.1; “Não há Deus”. É claro que eles pularam a introdução de tais palavras; “Diz o insensato no seu coração; Não há Deus”. Certas pessoas afirmam que é possível fazer a Bíblia dizer o que se queira. No entanto, quantos desses mesmos indivíduos afirmam que é possível fazer Shakespeare dizer o que se queira? Não resta dúvida de que as pessoas podem fazer a Bíblia dizer o que querem ouvir, desde que descartem os métodos normais para a compreensão de documentos escritos.

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck

Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.

pags 10-12