Os cânones da crítica textual

Nesse post apresentaremos, à guisa de resumo, os sete “cânones” ou regras de procedimento que os críticos utilizam para chegar a uma decisão inteligente acerca de textos divergentes. Tais cânones estão classificados na ordem de sua prioridade ou valor relativo.

Cânone 1. Em geral, prefere-se o texto mais antigo, e não o encontrado em manuscritos posteriores, mais recentes. Entretanto, podem-se encontrar textos menos confiáveis em manuscritos tão antigos como 1QIsa, simplesmente porque se trata de uma cópia feita rapidamente, tencionada para uso particular, não para utilização no culto público ou para instrução oficial. Normalmente, porém, quanto mais antigo for um manuscrito, menores probabilidades haverá de desvios do texto original.

Cânone 2. O texto mais difícil (lectio difficilior) há de ser preferido ao mais fácil. Isso resulta da maior probabilidade de o copista querer simplificar uma palavra ou expressão difícil, em seu Vorlage, em vez de preservar a dificuldade a fim de tornar mais fácil o que lhe parece difícil. Todavia, deve-se notar que, quando aparentemente o texto mais difícil resultou de confusão ou de inadvertência por parte do escriba, essa regra não se aplica. Diga-se o mesmo quando o texto é tão difícil que na verdade não faz sentido, senão quando o texto mais difícil exprime uma ideia ou opinião totalmente contrária aos sentimentos expressos noutras passagens do livro.

Cânone 3. Deve-se preferir o texto mais curto ao mais longo. A razão disso é que os copistas estão mais inclinados a inserir material adicional com o propósito de esclarecer ou embelezar o texto que a eliminar palavras já existentes em seu Vorlage. No entanto, essa regra não se aplica se o texto mais curto parece ser resultante de haplografia ou de homeoteleuto.

Cânone 4. O texto que explica melhor todas as variantes provavelmente é o original. Excelente exemplo disso foi discutido anteriormente em relação a Salmos 22.17, em que vimos ser a palavra kā’rû (“eles perfuraram”) interpretada como kā’a (numa época em que o waw e o yodh eram muito parecidos), explicando-se mais satisfatoriamente a versão do TM. É muito improvável que a expressão “como o leão” fosse o texto original por trás de kā’rû, que faz bom sentido no contexto.

Cânone 5. O texto que tiver aceitação mais extensa geograficamente deve ser preferido ao que predomina numa simples região ou numa única família de manuscritos. Assim, um texto consagrado pelas versões LXX, Antiga latina e Copta não é mais recomendável que o consagrado pela Vulgata e pela LXX (exceto os Salmos), ou pela LXX e pela Versão samaritana. A razão disso é que a Antiga latina e a Copta são traduções da LXX, e não do original hebraico. Por exemplo, em Números 22.35, a Versão samaritana e a LXX registram ṯišmōr le ḏabbēr (“tu serás cuidadoso no falar”), em comparação com a expressão simples do TM te ḏabbēr (“tu falarás”). Ainda que alguns manuscritos da LXX houvessem sido encontrados na biblioteca de Qumran, pode-se afirmar com segurança que a LXX e a Versão samaritana o exerceram pouquíssima influência uma sobre a outra. Portanto, se ambas trazem a mesma redação e divergem da redação do TM, é muito provável que esta seja inexata, e aquela, correta.

Cânone 6. A redação que se conforma mais intimamente com o estilo, com a fraseologia ou com a opinião do autor, no resto do livro, deve ser preferida à redação que aparenta grande divergência. É claro que esse critério deve ser aplicado com muito cuidado, visto que o escritor pode ser capaz de maior largueza de opiniões e de sentimentos, mais do que os modernos liberais julgariam admissível. Devemos resistir firmemente a quaisquer emendas que meramente reflitam nossas próprias preferências ou opiniões, de modo muito subjetivo.

Cânone 7. O texto que não reflete nenhum desvio doutrinário por parte do copista deve ser preferido à redação que deixa claro estar contaminada por espírito partidário. Assim é que encontramos em Isaías 1.12 o fato de os massoretas terem fugido do alegado antropomorfismo do TM: “Quando vocês vêm [lērā’ôṯ] à minha presença, quem lhes pediu que pusessem os pés em meus átrios?”. A redação óbvia desse texto não poderia ser a forma abreviada de um infinitivo médio-passivo (lērā’ôṯ, em vez de le hērā’ôṯ), mas sim o infinitivo ativo lira’ôṯ (“contemplar”). A razão por que se deve considerar o verbo no médio-passivo é de ordem teológica. Visto que nenhum ser humano jamais pôde contemplar a Deus, o profeta não seria tão tolo a ponto de proibir Israel de fazer algo que o povo jamais poderia realizar, ainda qusera na verdade chamada, * em hebraico, “a mesa e o pão da Presença” (šulḥān weleḥem pānîm). Os doze pães recebiam esse nome porque eram oferecidos diante da Presença do Senhor, “ocultos do outro lado da cortina que separava o Lugar Santo do Santo dos Santos.

* ” ainda qusera na verdade chamada” – está assim mesmo na impressão. Não consegui entender o sentido da frase para corrigir, então ficou como estava. (Nota da digitalizadora)

Fonte: Enciclopédia de Temas Bíblicos
Respostas às principais dúvidas, dificuldades e “contradições” da bíblia
Gleason Archer
Editora : Vida – pgs 38-39