O que é arqueologia “bíblica”?

A palavra “arqueologia” deriva do termo grego archaiología, que significa “estudo das coisas antigas [ou arcaicas]”. Os gregos usavam a palavra “arqueologia” para descrever antigas lendas e tradições. A primeira menção conhecida — em inglês — data de 1607, usada numa referência ao “conhecimento” sobre o Israel antigo com relação a fontes de literatura como a Bíblia. Então, no século XIX, quando começaram a ser desenterrados artefatos dos tempos bíblicos, a palavra foi a estes aplicada (excetuando-se os documentos escritos). Portanto, a arqueologia está ligada à Bíblia desde o começo. E hoje é entendida como um departamento da pesquisa histórica que busca revelar o passado por uma recuperação sistemática de seus resquícios. Todavia, à medida que a arqueologia se desenvolveu como ciência e as escavações alcançaram terras além das que têm relevância bíblica, surgiu a necessidade de se cunhar um termo mais exclusivo. E assim, como uma disciplina distinta em um campo mais extenso, nasceu a “arqueologia bíblica” — a ciência da escavação, decifração e avaliação crítica dos registros de materiais antigos relativos à Bíblia.

O nascimento da arqueologia bíblica

A arqueologia nasceu quando os homens começaram a querer recuperar materiais do passado. Os primeiros arqueólogos, se é que podemos chamá-los
assim, foram os ladrões de tumbas, que pilhavam os sepulcros da Antiguidade (geralmente não muito tempo depois de serem selados). Apesar do risco de acabar preso numa tumba com os cobiçados tesouros e da morte a que estava sujeito o ladrão aprisionado, a “profissão” aparentemente floresceu. A maioria das grandes tumbas do passado descobertas em nosso tempo já haviam sido visitadas por aqueles “profissionais”. Quando em tempos relativamente modernos o passado começou a ser explorado por aventureiros europeus, relíquias e souvenires eram levados para casa com o propósito de encantar amigos e conquistar fama. Logo os caçadores de fortuna começaram a proliferar, navegando para terras distantes em busca de riquezas que imaginavam estarem à espera deles nas vastas minas sem dono que eram as antigas ruínas.

As “escavações” desses mercenários destruíam material em proporção idêntica à dos achados. Outros, porém, com um espírito diferente, começaram a registrar as suas observações em pinturas e desenhos, que, apesar do romantismo, traziam notícias de terras e culturas havia muito esquecidas. A primeira tentativa “científica” em arqueologia foi conduzida por Napoleão Bonaparte em 1798. Seu interesse pela arqueologia era evidente, considerando- se a maneira como se dirigiu às tropas francesas após ter invadido o Egito: “Do alto destas pirâmides, cinqüenta séculos vos contemplam!” Diz-se que Thomas Jefferson “explorou cientificamente” os túmulos da Virgínia.

No século seguinte, outros americanos, como Edward Robinson e Eli Smith, juntaram-se a um grupo de eruditos da Inglaterra, Suíça, França, Alemanha e Áustria para publicar plantas topográficas, mapas detalhados e resultados de árduas escavações nas terras bíblicas. As primeiras expedições arqueológicas, executadas com altos custos, foram quase todas financiadas por pessoas cujo principal interesse era a Bíblia. Assim, na maioria das vezes, o progresso da arqueologia como um todo deveu-se ao impulso da arqueologia bíblica. Quaisquer que tenham sido as motivações, todavia, esses “descobridores das fronteiras arqueológicas” abriram caminho para um desenvolvimento mais científico da disciplina — em benefício de todos nós.

Tornando a história tangível

Como já mencionei, antes do nascimento da arqueologia ninguém tinha realmente ideia de como era o mundo da Bíblia. As concepções eram puramente imaginárias. Como conseqüência, os comentários da Bíblia eram recebidos quase do mesmo modo que os contos mitológicos dos gregos e romanos. Não que as pessoas rejeitassem a Bíblia como verdade. Mas o mundo da Bíblia lhes parecia um planeta diferente, e seus personagens, uma população alienígena cuja aparência e maneira de viver assemelhavam-se mais ao universo dos sonhos que à realidade. Lembro-me de como fiquei chocado ao visitar pela primeira vez a Terra Santa. A concepção que eu tinha de um Jesus vestido de linho branco a passear sobre tapetes de grama viridente, tal como se via nos flanelógrafos, evaporou-se diante da realidade. As relíquias diante de mim, resgatadas nas escavações e o material exposto nos vários museus da Terra Santa mudaram muitas de minhas ideias preconcebidas.

O mundo que eu construíra em minha imaginação ia se dissipando à medida que os fatos — que também diziam respeito à minha fé — me eram apresentados. E, passada a surpresa inicial, a arqueologia despertou- me para uma realidade: eu não tinha mais desculpas para justificar um comportamento diferente do apresentado pelos heróis da fé! Sim, porque eles também foram pessoas reais, vivendo num mundo real e conhecendo as mesmas preocupações e dúvidas com as quais eu me deparava. E, se a fé por eles manifestada desenvolvera-se num mundo real, então nada me escusava de ser diferente. E essa convicção tornou-se mais forte à medida que, ao logo dos anos e das sucessivas descobertas arqueológicas, os contornos do mundo bíblico real se faziam mais nítidos diante dos meus olhos. A arqueologia revelou as cidades, palácios, templos e casas dos que conviveram com os indivíduos cujos nomes aparecem nas Escrituras. Tais descobertas nos possibilitam declarar, como o apóstolo João: “O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida […] Estas coisas vos escrevemos” (l Jo 1.1,4).

Coisas palpáveis podem assistir a fé em seu crescimento. A arqueologia traz à luz os remanescentes tangíveis da história, permitindo a criação de um contexto razoável para o desenvolvimento da fé. Permite também que fatos a sustentem — a confirmação da realidade dos personagens e eventos bíblicos. Assim, céticos e santos podem, do mesmo modo, perceber a mensagem espiritual arraigada à história. O arqueólogo Bryant Wood, diretor da Associates for Biblical Research (Associados para Pesquisa Bíblica), comenta o assunto ao discorrer sobre a descoberta do nome “Casa de Davi” numa coluna de Tel Dã (c f capítulo 9):
“Sabemos que [Davi] é uma figura histórica porque ele é mencionado na Bíblia, mas isso não é suficiente para os eruditos. Eles precisam de evidência extrabíblica. Então a arqueologia bíblica pode desempenhar um importante papel, verificando a verdade das Escrituras em face da crítica que hoje recebemos da moderna erudição.”

Uma aventura para todos os tempos

A arqueologia de Hollywood é uma aventura sem fim. Os arqueólogos do cinema são em parte eruditos e em parte super-homens, capazes de saltar abismos flamejantes para resgatar fantásticos tesouros. Mas a arqueologia, em sua busca pelo passado, segue um caminho diverso. Ela é metodológica e freqüentemente secular. Mesmo assim, ainda é uma aventura — quando nos transporta ao passado e nos desafia a mudarmos nossa perspectiva do presente. Nessa aventura, às vezes somos forçados a substituir opiniões particulares por fatos concretos da história e a encarar, quem sabe pela primeira vez, a realidade da Palavra. E, à luz dos incessantes reclamos dos críticos, a arqueologia nos contempla com respostas adequadas a esta era tecnologicamente abençoada mas teologicamente falida. É com um senso de aventura, então, que o convido a unir-se a mim numa viagem através do tempo — para escavar o solo, sondar as Escrituras e descobrir que coisas maravilhosas nos falam as pedras!

Fonte: Livro: Arqueologia Bíblia- Autor: Randall Price, Editora: CPAD, pags- 21-24