Antropologia Teológica

Antropologia é o estudo ou a ciência do homem. Estudá-la na perspectiva teológica não é o mesmo que estudá-la na perspectiva científica. O estudo antropológico no campo das ciências ignora completamente tudo o que a Bíblia diz sobre o homem, a começar pela sua origem. Para as ciências biológicas e humanas o homem é visto como uma animal racional que vive em sociedade. Para a antropologia bíblico-teológica o homem é um ser criado por Deus, possuindo características que o tornam semelhante ao seu Criador tendo, portanto, uma conduta que requer dele prestação de contas por seus atos. Enquanto, para as ciências, a religiosidade inerente do homem é mero reflexo das suas emoções, para a antropologia teológica ela é sintomática, porque espelha uma relação existente desde o homem primevo com o Criador, a qual não pode ser ignorada. Enquanto a antropologia extrabíblica não vê nenhum propósito na existência humana, a antropologia teológica compreende haver uma razão altamente relevante: a glória de Deus.

Para a antropologia extrabíblica, o homem, os animais e a vida, em si, são mero fruto do acaso; para a antropologia teológica, o que é, não poderia não ser, porque cumpre propósitos eternos nos planos supremos de Deus, conforme se depreende da revelação que se espraia por toda a Bíblia. O que há de comum entre a antropologia como ciência e a antropologia teológica é que ambas se ocupam em entender quem é o homem e o que ele faz. No campo das ciências, a biologia está interessada em estudar o homem geneticamente e compará-lo às demais espécies animais; a psicologia está interessada em conhecê-lo em sua conduta relacional; a sociologia está interessada em conhecê-lo na sua história, desenvolvimento cultural, tecnológico e social nos diferentes grupos étnicos. No campo teológico, a antropologia está interessada em estudar o ser criado à imagem e semelhança de Deus, seu tempo de pureza moral, sua queda pelo pecado, seu comportamento depois de caído e seu interesse em buscar ou não a Deus e recuperar seu antigo status perdido no jardim do Éden.

A antropologia teológica ocupa-se de estudar o homem não apenas como ser humano, mas como um ser eterno; sua grandeza em relação ao universo a ponto de haver mobilizado o Céu, quando o Criador enviou Seu Filho Unigênito à Terra para ter com o homem e se apresentar a ele como alguém capaz de recuperá-lo à condição original, perdida no Éden, assim que desobedecera a Deus. Não obstantes as diferenças encontradas nos pressupostos das ciências e os da Bíblia, não podemos e não devemos menosprezar as ciências, porque os cientistas são ministros de Deus em favor da terra e dos homens. As discordâncias que há em relação à origem e a queda do homem, decorrem de fatores de razão e de fé, para os quais, os que se atêm à revelação bíblica, o entendimento sobre o homem toma um rumo que não pode ser explicado, de começo ao fim, senão pelas Escrituras Sagradas. E, uma vez que se toma esse caminho é necessário manter-se nele até o fim.

Não haverá contradição em torno da verdade e nem deve ser a intenção do intérprete bíblico ir contra a verdade, pelo contrário, como defensores da verdade que, como crentes em Jesus, somos, não há por que temê-la. Na questão das teorias evolucionistas que se propõem a explicar a origem do homem na terra, conforme trataremos mais adiante, podemos de antemão alertar o leitor de que as pressuposições das ciências não são comprovadas, mantendo-se todas elas no nível de teoria e não de Ciência e, mesmo que, se em algum momento as ciências trouxerem prova que confirme a antiguidade do homem para um período muito remoto ou que se prove que, de alguma maneira, o homem é mesmo fruto de evolução; isso tudo em nada diminuiria o testemunho bíblico a respeito do homem, de que ele fora criado por Deus à Sua imagem e semelhança. Com respeito à narrativa bíblica inicial sobre o homem, Chafer observa que essa foi feita por um homem muito distante de nós e voltada para o homem daquela época

Mas, prossegue o mesmo autor:

É também verdade que a expansão da doutrina segue o curso da revelação divina, mas há uma qualidade sobrenatural do começo ao fim que harmoniza tudo o que é dito em muitos séculos numa narrativa consistente. Os homens dos tempos primitivos falaram a própria linguagem deles às pessoas daqueles tempos. A verdade revelada é elevada acima do nível dos fatos naturais e revela um discernimento que é divino.

A Bíblia não foi escrita com propósito científico, mas espiritual. O modo curto e rápido com que ela descreve a origem do universo e, particularmente do homem, dá a entender que há infinitos detalhes que, se fossem escritos, ocupariam muitos volumes e não apenas algumas poucas páginas, como encontramos na Bíblia Sagrada; entretanto, o estudante da Bíblia satisfaz-se com as informações ali existentes, porque elas servem de base para todo o complexo conteúdo da revelação que segue até o final das Escrituras.

Livro: TEOLOGIA PARA PENTECOSTAIS UMA TEOLOGIA SISTEMÁTICA EXPANDIDA, Vol 3, Pags 11-14