A historicidade do Êxodo

Estabelecer a historicidade do êxodo é um dos maiores problemas que permanecem para os eruditos bíblicos. A narrativa bíblica do êxodo tem sido notoriamente de difícil confirmação através da evidência arqueológica, causando assim sérias dúvidas sobre a autenticidade do evento. Um obstáculo para a aceitação do êxodo como um verdadeiro acontecimento tem sido a incapacidade dos eruditos de reconciliar os acontecimentos do êxodo com a cronologia bíblica e arqueológica. Uma data antiga no século XV a.C. (1446-1441 a.C.) para o êxodo está em maior harmonia com a cronologia interna do Antigo Testamento (veja 1 Rs 6.1). O clássico estudo cronológico feito por Edwin Thiele fixou a antiga data de 1447 a.C. para o êxodo. De acordo com esta data, o faraó da opressão era Tutmose I ou Tutmose III e o faraó do êxodo foi Tutmose II ou Amenotep II. A biografia antiga de um oficial naval egípcio chamado Amenemhab, que serviu sob diversos faraós deste período, nos mostra que aquele Tutmose III morreu no tempo da Páscoa no início de março de 1447 ou 1446 a.C. Assim, sua morte ocorreu exatamente no tempo certo para encaixar-se com a cronologia bíblica e os acontecimentos do êxodo.

Todavia, William Shea recentemente argumentou num documento não publicado que Tutmose I e um recém- instalado filho co-regente — a princípio Tutmose II — morreram juntos perseguindo os escravos israelitas (como talvez implícito em Êx 15.4,19). Ele crê que seus corpos não tenham sido recuperados (daí as múmias designadas a eles no Museu Egípcio no Cairo estarem erroneamente identificadas). Ele baseia seu argumento em novas fotografias de Oral Collins das inscrições do Vadi Nasb do Sinai, descobertas pelo professor Gerster muitas décadas atrás, que pretendem registrar o nome de Tutmose I e desenhar imagens tanto dele como de seu filho e os eventos relacionados ao êxodo. O problema com a data antiga é que apesar de sua harmonia com fontes bíblicas e extrabíblicas, falta sustentação suficiente no registro arqueológico. Uma data posterior no século XIII a.C. (1280-1200 a.C.) parece oferecer maior apoio arqueológico (veja Êx 1.11), mas tem significativos problemas cronológicos e não pode se acomodar aos eventos da Conquista. De acordo com esta data, o faraó tanto da opressão como do êxodo foi Ramsés II e seu sucessor foi Merneptá.

A falta de consenso tem gerado outras opções que geralmente exigem a revisão da cronologia egípcia ou que tomem a arqueologia bíblica como uma estimativa aproximada ao invés de uma indicação precisa. Esta revisão posterior leva a data de volta a 1470 a.C. Faulstich chegou a datas incrivelmente precisas para todos os acontecimentos do êxodo através de suas correlações computadorizadas de informações sobre datas astronômicas, informação bíblica a respeito de acontecimentos astronômicos (surgimento de estrelas, fases da lua e eclipses), os ciclos semanais do dia hebraico, e datas específicas apresentadas na Bíblia. Apesar de não ter-se chegado ainda a consenso algum, a busca contínua por evidência arqueológica dos registros do êxodo reafirma a importância do evento para os estudantes da Bíblia.

A importância do êxodo

A importância do êxodo tem sido enfatizada por Eugene Merrill, professor de Antigo Testamento no Dallas Seminary, que chamou-o de “o mais significativo acontecimento de todo o Antigo Testamento.” O êxodo não é simplesmente um acontecimento isolado dentre muitos na história do povo judeu; este foi o evento central sobre o qual os planos de Deus sofrem uma reviravolta e tanto o Antigo como o Novo Testamentos estão unidos. O professor John Durham explica: Tanto dentro do livro de Êxodo como além dele, a libertação do êxodo é descrita como o ato pelo qual Israel foi levado a ser um povo e, portanto, como o ponto inicial da história de Israel… com o êxodo, Ele [Deus] revelou sua presença para um povo inteiro e chamou-o para ser uma nação e desempenhar um papel especial relacionando-se com ele em aliança. Este papel especial se torna um tipo de lente através da qual Israel é visto por todo o restante da Bíblia… que dá forma a muito da teologia do A.T. [Antigo Testamento].

É esse papel especial, na verdade, que inclui o livro de Êxodo tão completamente na produção canônica iniciada com Gênesis e concluída somente com o Apocalipse. O êxodo amarra os dois Testamentos juntos de tal maneira que negar que ele jamais tenha acontecido desmantelaria a estrutura teológica tanto do judaísmo como do cristianismo. Assim, é natural que busquemos o êxodo em algum lugar do registro arqueológico. Mas onde procurar, e o que podemos esperar encontrar? Vamos responder esta última pergunta primeiro.

Deveríamos esperar encontrar o êxodo?

Deveríamos esperar encontrar qualquer evidência arqueológica para o êxodo? Como os patriarcas antes deles, os israelitas viveram um estilo de vida nômade durante o êxodo. As exigências da vida no deserto do Sinai requeriam que nada fosse descartado, que todo item fosse usado até sua capacidade máxima — e então reciclado. Até os ossos de uma refeição seriam completamente reutilizados em várias aplicações industriais. Os acampamentos temporários em tendas dos israelitas não teriam deixado quaisquer vestígios, especialmente nas sempre móveis areias do deserto. Pode haver traços de grafito em rochas do Sinai que sugiram a presença dos israelitas nesta região, mas em sua maior parte, por causa das condições do deserto, os israelitas teriam que ser “arqueolo- gicamente invisíveis”. Mas, e quanto a possibilidade de registros egípcios que confirmem a ocorrência das pragas do êxodo e a destruição do exército egípcio no mar Vermelho? E possível que alguma evidência ainda apareça, mas não devemos esperar que os egípcios, orgulhosamente religiosos, tenham abertamente documentado desastres que difamassem seus deuses e imortalizassem a derrota de seu exército nas mãos de escravos andarilhos.

Como Charles Aling observa: “Os povos do antigo Oriente Próximo mantiveram registros históricos para impressionar seus deuses e também inimigos em potencial, e por isso raramente, talvez nunca, mencionaram derrotas ou catástrofes. Registros de desastres não fortaleceria a reputação dos egípcios aos olhos de seus deuses, nem tornaria seus inimigos mais temerosos de seu poder militar.”
Isto significa que é improvável que encontremos um registro das pragas, o afogamento do exército egípcio no mar Vermelho ou as pegadas dos israelitas nas areias do deserto do Sinai. Se não podemos esperar encontrar vestígios de um êxodo nestes lugares, onde podemos procurá-los?

A evidência para o êxodo

Um modo de podermos defender a ocorrência do êxodo é através do que se pode chamar “plausibilidade contextual.” Isto é, mesmo que não possamos ter evidência histórica direta para qualquer dos personagens ou eventos conectados com o êxodo, ou nem possamos concordar com datas específicas, o esboço geral conforme apresentado no relato bíblico é fiel aos tempos. Portanto, é muito mais provável que o êxodo tenha ocorrido do que o contrário. O argumento mais plausível no momento tem sido sobre a base da evidência egípcia. Por exemplo, podemos demonstrar que os detalhes da vida na corte egípcia e certas peculiaridades na língua hebraica usados para descrever tais atividades indicam que o escritor tinha conhecimento em primeira mão daquele ambiente específico no Egito. Nós temos evidência de que estrangeiros de Canaã entraram no Egito, viveram lá, foram considerados algumas vezes criadores de problemas, e que o Egito oprimiu e escravizou uma vasta força estrangeira durante várias dinastias. Também temos registro de que escravos escaparam, e que o Egito sofreu sob condições semelhantes a pragas.

Podemos fornecer um modelo por computador de um mecanismo científico para a divisão das águas durante a travessia israelita do mar Vermelho. Podemos provar a presença de pessoas como os israelitas na península do Sinai, em Cades-Barnéia, e em outros lugares mencionados nos livros da Bíblia que registram esta história. Podemos demonstrar através de uma comparação com o código de leis do antigo Oriente Próximo que datam de antes da concessão da Lei no Sinai que sua forma e estrutura se encaixam no então estabelecido padrão para tais textos. Finalmente, podemos fornecer informações arqueológicas para sustentar várias datas para a Conquista e os períodos de colonização, que seguiram-se ao êxodo. Estas informações vêm de sítios tais como Jericó, Megido e Hazor.

Considerações arqueológicas

No início do êxodo, quando os israelitas deixaram o Egito, a rota mais direta e sensata seria viajar para o norte ao longo da atual Faixa de Gaza numa direção que os levaria à Canaã. Todavia, o relato bíblico nos diz que Deus não permitiu esta rota ao longo da planície costeira do Mediterrâneo. O relato bíblico afirma: E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que, porventura, o povo não se arrependa, vendo a guerra, e tornem para o Egito” (Êx 13.17). Assim, os israelitas acabaram tomando uma rota muito mais longa ao sul, que se aprofundava no Sinai. Até a última década ninguém sabia porque Deus os mantivera longe da rota mais fácil ao norte. A obscura referência à “guerra” em Êxodo 13.17 era discutível porque ninguém sabia que povo estaria em conflito com os israelitas. A resposta foi descoberta pela arqueóloga israelita Trude Dothan, que se especializou no período antigo da ocupação filistéia de Canaã.

No sítio de Deir el-Balah ao longo da antiga rota chamada de “Caminhos de Horus,” ela descobriu a evidência que finalmente resolveu este quebra-cabeça do êxodo. Quando recentemente visitei com ela o Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica, pedi a ela para contar-me novamente sobre esta descoberta e explicar seu significado: Cheguei ao sítio de Deir el-Balah na Faixa de Gaza em busca dos filisteus. O que descobri foi uma colônia egípcia do período do êxodo, o período do Egito de Ramsés II, que é considerado como o Faraó do êxodo. A história do sítio é intrigante, costurando a informação dos ladrões [de tumba] e depois de nossa escavação arqueológica profissional. Os resultados foram que descobrimos na rota do Egito para Canaã uma colônia que havia sido edificada [no século XIV a.C.] como também uma fortaleza do período de Séti I [e o de seu filho] Ramsés II. Adjacente à colônia havia um cemitério cheio de grandes sarcófagos atropóides (em forma humana) que são definitivamente do estilo egípcio. Porque havia trabalhado previamente sobre os hábitos dos filisteus em Bete-Seã, um sítio muito importante de Israel e bem conhecido da Bíblia, eu sabia a respeito de sarcófagos como estes. [Então eu] tentei identificar cinco destes sarcófagos com proteção especial para a cabeça, com retratos dos filisteus conhecidos dos relevos egípcios no período de Ramsés III.

A importância deste sítio está em sua localização geográfica na rota do Egito para Canaã… uma rota militar dos egípcios que subia para Canaã… Quando encontramos a fortaleza [datada do] fim do século XIII, surgiu a ideia de que esta era realmente uma das muitas fortalezas pontilhando o caminho de Canaã à Gaza. [Assim] a área era muito bem fortificada, o que se constitui a razão de os israelitas não terem desejado seguir o caminho curto para Canaã, mas escolhido o caminho longo para o Sinai, porque eles estavam com medo dos egípcios e das fortificações que estavam no atalho. Agora sabemos à luz das escavações de Deir el-Balah que “o Caminho dos filisteus” mencionado na Bíblia é também “o Caminho de Horus”, mencionado nos relevos do templo egípcio em Carnaque. Este relevo também descrevia algumas das fortalezas egípcias ao longo desta rota, incluindo a que Trude Dothan descobriu. Então, desta notável correlação entre a Bíblia e dois sítios arqueológicos, podemos concluir que os israelitas foram avisados para evitar esta rota, porque eles entrariam nesta linha de forças de defesa comandada pelos soldados egípcios. Os soldados alocados ali estavam preparados para lutar, recapturar e enviar de volta ao Egito tais escravos fugitivos. Uma vez que os recém-libertos israelitas estavam despreparados para a batalha, o deserto era a opção mais segura.

Fonte: Livro: Arqueologia Bíblia- Autor: Randall Price, Editora: CPAD, pags. 102-108